O post de hoje vai dar uma pausa na narração da viagem para falar um pouco de um assunto que TODOS me perguntam. Eu recebo emails de conhecidos e desconhecidos que acessaram o blog e têm dúvidas quanto a roteiros, volta ao mundo, perigos, custos e principalmente: como é viajar sozinha.
Inevitavelmente esse post vai ficar sentimental, mas vou compartilhar com vocês como tudo aconteceu.
Deixei Curitiba no dia 8 de janeiro de 2011 para passar 3 meses na Europa. 1 mês só em Paris e 2 outros meses viajando por outros países. Já tinha tudo acertado, desde o roteiro até reservas de avião, trem e hostels.
Cheguei a Paris e lá não tive tempo de estar sozinha, pois no meu primeiro dia na escola de francês eu conheci a Camila, coincidentemente também de Curitiba. Ela também tinha ido sozinha e desde aquele primeiro dia não nos desgrudamos mais.
Em uma viagem ao Rio em 2010, conheci dois franceses, o Aymeric e o Guillaume, que contactei ao chegar a Paris e eles também se tornaram meus amigos, meus e da Cami. Formamos um quarteto. Além deles, também fiz amizade com outros brasileiros e estrangeiros da escola.
Raclette chez Guillaume.
(Gui, Aymeric, eu e a Cami)
Após um mês em Paris, iniciei meu mochilão na Europa. E aí foi o começo da minha experiência viajando sozinha. Comecei em Bruxelas, foi um mau começo. Não fiz amizade com ninguém lá, porque o hostel estava meio vazio e as espanholas que estavam lá não se interessaram em fazer amizade comigo :(
Lembro que liguei para a Camila - que ainda estava em Paris, e disse que já sentia a falta de lá e queria voltar. Ela disse para eu ter calma, porque Bruxelas é monótona mesmo, mas que de Amsterdam (meu próximo destino) eu iria gostar. E foi isso mesmo, em Amsterdam conheci uns belgas e umas meninas locais e me diverti.
Eu sozinha em Bruxelas!
Foi aí que fiquei confiante e segui em frente. Nos dois meses de mochilão eu fiz Bélgica, Holanda, Dinamarca, Suécia, Alemanha, Rep. Tcheca, Hungria, Áustria, Croácia, Itália, Irlanda, Escócia, Inglaterra em Espanha.
Foram dois meses maravilhosos e agradeço a todos que fizeram parte disso, que me acolheram, que me fizeram companhia, que me deram dicas.
Principalmente a minha amiga Manoela Accioly que me incentivou a fazer toda a viagem e que foi me encontrar na Irlanda! E também ao Danniel, amigo dela, que me recepcionou como ninguém em Dublin,
Manoela A., Danniel e eu no interior da Irlanda
Visitando meu amigo Edson em Londres.
Depois disso, o plano era voltar para o Brasil, mas a vontade era zero. Queria mais. A Camila ficaria em Paris até julho e me convenceu a dividir um apartamento com ela e portanto, estender minha permanência na Europa até julho.
Minha mãe ficou triste, mas quando dei a notícia pareceu-me que ela já esperava por isso.
Nos três meses seguintes fiquei só em Paris e conhecemos mais pessoas, além de termos tido vários amigos de Curitiba visitando, inclusive a Renata, uma das minhas melhores amigas.
Eu e a Renata na Pont des Arts, Paris
Aniversário da Camila no nosso (mini) apartamento!
(Renata, Samanta, Bel, eu, Aymeric, Cami, Stefan e Guillaume ao fundo)
A rotina de Paris foi um desafio que eu viveria mais 1000 vezes. Não vou contar novidade alguma dizendo que os parisienses têm um jeitinho peculiar de ser, resumindo-se a estressados e a burocráticos. Mas Paris não cansa de ser bonita e dinâmica. Todos os dias eu fazia novas descobertas e o meu principal hobby se tornou degustar as delícias da culinária francesa. O que me rendeu um sobrepeso de 12 kg!!! Mas calma, eu consegui perder tudo. Ufa!
Eu e a Cami jantando no Pub Saint Germain e ganhando alguns quilinhos!
Acontece que lá pelo começo de junho, me ocorreu a idéia de ir um pouco mais longe, digamos assim, até a Ásia. A idéia me pareceu louca no início, mas foram tantas noites que passei matutando e tanta troca de idéia com outros mochileiros em fóruns online, que um dia acordei decidida e nem eu mesma poderia me convencer a desistir. Queria começar em Hong Kong, mas antes dar uma paradinha em Moscou.
Quando contei a minha família eles surtaram. Minha mãe chorou, meu irmão achou que eu seria sequestrada e que todo mal poderia me ocorrer. Até que os convenci e fui. Sem reservas e somente com um esboço de roteiro. Fiquei pela Ásia e Oriente Médio até novembro, totalizando 5 meses. Fiz China, Tailândia, Malásia, Indonésia, Filipinas, Camboja, Turquia, Líbano, Jordânia e Israel.
Em dezembro voltei para Europa onde passei o Natal na casa de uma das minhas amigas alemãs que conheci na Ásia. Só voltei para o Brasil em janeiro de 2012, 360 dias após minha partida.
Natal em Freilassing
Mas o que eu realmente queria contar aqui foi o que se passou na minha cabeça durante a viagem.
Bem, se eu dissesse que não me senti só em momento algum, eu estaria mentindo. Mas a maior parte do tempo me senti auto-suficiente, capaz. Fiz amigos passageiros e amigos para a vida, testei minhas limitações e o mais importante de tudo: passei a acreditar que a maioria das pessoas é boa, porque em todos os momentos que precisei sempre apareceu um estranho e me ajudou sem pedir nada em troca.
Eu me forcei a ser simpática e descolada muitas vezes. Ao chegar a um hostel eu tinha que me apresentar e conhecer gente, se não ficava sozinha. Algumas vezes foi fácil e pessoas vinham conversar como se já me conhecessem há anos, outras vezes eu tive que chegar como se já as conhecesse há anos. Com algumas destas pessoas fiquei apenas poucas horas, com outros alguns dias, e dois meses com a Feli e a Alina que eu já citei em tantos posts aqui.
Pessoas que eu conheci no hostel em Veneza no Carnaval.
Com as alemãs Felicitas e Alina, amigas para a vida toda.
Nos momentos sozinha tive algumas conversas imaginárias - deixando claro que foi só em pensamento, eu não ficava falando sozinha! Imaginei-me conversando com a minha mãe, ou com meu irmão, com algum amigo e também com meu saudoso paizinho, como se eles estivessem ali. E principalmente com meu pai, eu tive conversas malucas, imaginando o que ele diria de todas as minhas andanças pelo mundo se ainda estivesse vivo. E me fazia acreditar que ele estaria orgulhoso. Senti saudades, sim muita, de todos. E mais uma vez, do meu pai em especial. Foi num banco gelado de Estocolmo que mais senti saudades dele, pois percebi que não importava em quantos países eu pisasse, eu não o encontraria em nenhum deles, e mais, que ele morreu antes de ir a muitos lugares que gostaria de ter ido.
Mas além dessas loucas conversas imaginárias, tive paz em minha própria companhia a maior parte do tempo em que estive sozinha. E em momento algum pensei em voltar para a casa antes da hora.
Imprevistos aconteceram também, como por exemplo no final da viagem, quando estava no Líbano e tive um problema com meu cartão e fiquei sem dinheiro. Para encurtar a história, eu estava sentada na rua com a minha mala, após ser expulsa do hostel, sem saber o que fazer, sem um centavo e sem celular; quando fui ajudada por dois libaneses. Após algumas horas e algumas ligações para minha mãe, o problema foi resolvido e os dois então me convidaram para ir a uma festa de Halloween. Encurtando mais um pouco a história, com um deles eu acabei namorando por um ano.
Sinto saudades de todos que conheci pelo mundo, das comidas estranhas, de olhar o mapa mundi e escolher para onde ir, de ler guias do começo ao fim e fazer roteiros, de desembarcar num país novo, de ir para festas vestindo bermuda e havaianas... entre tantas outras coisas!
Então eu aconselho todos a não terem medo de estarem em própria companhia, tenham uma experiência como essa, não precisa ser por um ano! Conheçam a si mesmos e estejam dispostos a conhecer outras pessoas e outras culturas.
Hoje lembrando tudo, rio daquela Manoela que no começo da viagem se desesperou sozinha em Bruxelas.
Eu e um beduíno simpático na Jordânia.
Conclusão final do meu ano sabático: precisamos dos outros para sermos felizes, mas não dependemos de ninguém para realizar nossos sonhos!
Vou finalizar o post com um mini texto que eu adoro (ah, não vou traduzir, tá?), e com uma foto de pôr do sol na Bavária, Alemanha:
“Don’t wait around. Don’t get old and make excuses. Save a couple thousand dollars. Sell your car. Get a world atlas. Start looking at every page and tell yourself that you can go there. You can live there. Are there sacrifices to be made? Of course. Is it worth it? Absolutely. The only way you’ll find out is to get on the plane and go. And let me tell you something. That first morning, when you are in your country of choice, away from all of the conventions of a typical, everyday lifestyle, looking around at your totally new surroundings, hearing strange languages, smelling strange, new smells, you’ll know exactly what I’m talking about. You’ll feel like the luckiest person in the world.”